No começo eram só discursos academicistas. Vozes formadas, debates, discussões, apreciações estéticas, críticas teatrais. Dezenas de olhos esbugalhados nas pontas dos pés e o pescoço esticado para ver uma pontinha e ouvir um piuzinho do diálogo eloqüente da homenagem que prestavam. Fotos, canções, relembranças e pessoas esmagadas na porta. Várias bundas sentadas no chão.
Até o intervalo.
Centenas se apertavam, esticavam ainda mais o pescoço para se alegrarem com vultos efêmeros, braços que se erguiam vez ou outra, uma cabeça dançante. Era o efeito extático da tarde. Vinhos, cigarros, baseados, e um pão murcho provavelmente recheado com queijo. Ele falou de tesão o tempo inteiro, do gozo perante a platéia. Balbuciava baixinho, quase uma paina. Contou fofocas sobre Raul Seixas, saudou dois amigos dos tempos áureos, triunfou com Barak Obama, praguejou quem deixa o celular ligado em lugares públicos e silenciosos, glorificou a vida, o Gilberto Gil, lastimou as cidades do interior de São Paulo, xingou o capitalismo, criticou a traição do PSDB, ressaltou a necessidade da leveza e da fluidez, levantou a bandeira contra as armas e a guerra, disse: "estamos iniciando uma nova era". Confessou consultar e acreditar nos horóscopos, declarou que o cosmos influi sobre tudo na vida, no dia-a-dia, na menstruação, na mudança da maré: “é ignorância ignorá-lo”. E, é claro, amor à/pela/na/com a vida. Um brinde e uma garrafa de pinga que rodou toda a sala e “evoé”.
Bastou uma pergunta para deflagrar o espetáculo: todos ficaram nus. Ele desceu as calças e deixou o bilau balançando. Atrás dele vieram outros dez ou mais, sei lá, mas permaneceram de sunga. Tirar tudo, tudo mesmo, só um, o ‘Harry’, era quem estava ao lado dele no "palco", no meio da assembléia. E uma multidão cantarolava “Tupi Tupi or not Tupi”, acompanhada pelo clamor possante da bateria. Alguns fantasiados de índio se deliciavam na algazarra, a fundação do movimento/ núcleo/ grupo/ coletivo de artes do Ifch chamado Duchamp.
O mais legal foi eu ter assistido a tudo sem o mínimo abalo sentimental ou triunfeiro. “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, acho que já morri. Fiquei quase o tempo todo ao lado de uma ‘Alice’, a euforia não continha a língua dela que não parava de comentar cada suspiro, cada gracejo, cada blasfêmia, cada tudo que o homem sussurrava ao microfone.
Bom, depois de tudo isso ele se sentou, e um moço sentou no colo dele, os dois se beijaram... A essa altura, o gargalho da pinga já havia beijado (quase) todas as bocas ali presentes, quase todos com baseado à mão à boca, fumaças.
18:15 eu sai, fui embora, tinha aula. O meu relato termina por aqui, minhas impressões...
Saindo dali, tudo era o mesmo, calmaria, havia outra bateria em outro terreno abafando o murmurinho que ia se afastando. Muchachão rolando solto no campinho ao lado da Economia, a bateria tava lá, na torcida. Ninguém fazia nem idéia do que rolava no Auditório I do IFCH. A galera lá dentro achando que tava fazendo revolução. O protesto era contra a prisão de ventre do marxismo sufocante da Unicamp, um misto de laxante e pólvora pra arremessar tudo pelo “cu do IFCH”.
Embora atônita, aquilo me causou um efeito catártico. Em mim, que reclamara de dores no corpo pela manhã, cansaço, fadiga profunda. Eu, que me rastejara para chegar até lá, doente da alma, tive um momento de descarrego. Foi bom como um orgasmo seco. Mudou muita coisa.
Fui para o ponto, peguei o 330 e segui para o Cotuca cotucar os que estariam por lá.
Sentei-me diante de uma máquina e escrevi este novo post.
José Celso Martinez Corrêa estava lá para não sair mais, aderiu a tudo, acolheu a todos.
Este foi mais um espetáculo causado por Zé Celso Martinez Corrêa, no evento que se definia por: "Teatro Oficina – uma homenagem pelos 50 anos", do memorável 05 de Novembro de 2008, por volta das 16h.